E aí jogadores!? A primeira vez que vi um pixel executar um movimento de artes marciais foi nos anos 80. Por volta de 87 eu tinha 6 anos e fiquei impressionado com aquilo, afinal, o TK 3000 (Sim, não era um PC com Windows, era um Apple II) era uma máquina que gerava gráficos fantásticos de 16bits e o criador do jogo Karateka, Jordan Mechner, o mesmo do aclamado Prince of Persia, introduziu as primeiras cut senes em jogos eletrônicos, que apesar de não ter voz alguma, aumentavam absurdamente a dramaticidade da história.

Ele não era praticante de artes marciais, mas era sim um artista. Formado em psicologia em

Yale e fã de cinema, foi o primeiro a utilizar rotoscopia em games, que logo iria evoluir para o motion capture, que todos já ouviram falar. Influenciado por filmes de Bruce Lee, A Lenda dos Sete Samurais e o Livro dos 5 Anéis (Go Rin no Sho)de Myamoto Musashi, criou Karateca com apenas 20 anos e lançou sozinho em 1984. Em 1989 com mais experiências e pessoas envolvidas no projeto ( incríveis 3 pessoas! )conheceríamos o aclamado Prince of Persia.

Lembro-me de dizer a minha mãe que eu não conseguia dormir naquela noite, pois o jogo

havia me “impressionado”, afinal, tinha acabado de descobrir duas paixões que me envolveria para o resto de minha vida: jogos eletrônicos e artes marciais. Não imaginava como poderia existir um jogo melhor com artes marciais que Karateka. Eu estava errado.

Quando fui a um playtime ou fliperama, dependendo o lado da sua rua, e vi um gabinete de

arcade com 6 botões para jogar pensei: “como pode alguém dominar isso!?” Afinal, na época os jogos de arcade no máximo tinham 3 botões, até os pinballs tinham só 2. Sim. Estou falando de Street Fighter, mas é o primeiro, não é o 2. Então um estardalhaço foi criado nos arcades da época (Fliperama). Só cheguei a conhecer Street Fighter no começo dos anos 90 e outra vez um cara de Kimono(na verdade o nome correto é Karate Gi) surge ”esculachando” gente do mundo todo! Apesar do curto sucesso do primeiro jogo de luta da “Capcom”, porque aspas?

Bom, isso é uma outra história…, pois a dificuldade dos inimigos era enorme e os movimentos de esfregar no controle para sair os golpes especiais com aquela voz abafada do personagem não ajudava na jogabilidade. Mas logo depois, em 1991, lançaram o World Warrior, o Street fighter II que todo mundo conhece, com melhorias e aquela gritaria de :”Hado-Hadooooken!Hado-hadoooken!” na disputa de magia que enchia o saco, mas todo mundo gostava. Não sabia eu que a saga de Ryu foi baseada na história do mestre e fundador de Karate Kyokushin, o mestre Masutatsu Oyama e no mangá Karate baka ichidai, que conta parte da vida de Oyama e onde podemos encontrar diversas referências que foram usadas para o jogo, como seu maior inimigo que foi um lutador de Muai Thai e tinha um tapa olho…..não, o nome dele não era Sagat, era Reiba! Outros jogos como Karate Champ, que se passava em um campeonato de Kyokushin, World Heroes e outros onde no Bonus stage é necessário quebrar garrafas ou acertar touros, fizeram alusão aos touros que Oyama enfrentou de verdade e que chegou a partir o chifre de muitos com golpes de “Shuto uke” ou faca da mão.

Depois de Street Fighter vieram muitos e de ótima qualidade como Mortal Kombat que

inicialmente deveria ser um jogo todo baseado em Blood Sport( O Grande dragão Branco)com Jean Claude Van Damme e cia digitalizados, mas a coisa desandou pois eles estavam envolvidos com outros projetos de jogo com o ator que nem saiu. Graças a deus. Apesar disso a referência a Van Damme está lá: Johnny Cage, ou seja J.C.= Jean Claude, sua abertura de espacate com soco esta lá e a bermudinha preta também. Só faltou chorar e gritar como ele na parte do pó nos olhos, hehehe.

Seguindo adiante, outra obra prima com ótimas referências é o super aclamado, mas que deu um super prejuízo à SEGA: Shenmue. Uma das maiores paixões da minha vida. O responsável por esse jogo épico foi ninguém menos que Yu Suzuki, pai de Outrun, After Burner, Space Harrier, Virtua Cop, Virtua Racing (Rubens Barrichello mencionou que jogar Virtua Racing era como treino para ele) e Virtua Fighter, este, que foi reconhecido pelo Smithsonian Institution (Instituto Smithsoniano) por sua contribuição à sociedade nos campos da arte e do entretenimento. E pela primeira vez na história da indústria japonesa de jogos, se tornou parte da coleção permanente de pesquisa do Instituto em inovação da tecnologia da informação e é preservado no Museu Nacional de História Americana em Washington, D.C. Em 2003, Suzuki se tornou a sexta pessoa a ser indicada à Academy of Interactive Arts and Sciences’ Hall of Fame (Hall da Fama da Academia de Artes e Ciências Interativas), dados importantes impossível de não serem mencionados. Apesar desses grandes jogos para arcades, Yu Suzuki queria romper a barreira dos 3 minutos, que era o tempo médio que durava uma ficha no Arcade. Bom, então nascia Shenmue, fruto de toda sua experiência com arcades, artes marciais, corridas e um toque cinematográfico estilo Raimond Chow! Shenmue inicialmente foi projetado para Sega Saturn e cogitado para ser o Virtua Fighter RPG e contar a história do personagem Akira, mas no final teve seu projeto alterado, e produzido para Dreamcast, mas mesmo assim vemos semelhanças entre os personagens como Ryo e Akira, praticantes de Kung Fu Baji Quan e muitos movimentos dos personagens foram tirados de Virtua Fighter, principalmente no Shenmue 2.

O que pouca gente sabe é que a história de Shenmue é baseada no Mangá “Kenji”, inspirado na história de Ryuchi Matsuda, artista marcial praticante de Baji Quan, Taichi Chuan, linhagem Chen e chegou a tornar-se monge tibetano para se aprofundar na sua arte.

Devemos muito às artes marciais, não só seu aspecto combativo que os jogos tanto mostram, mas sua filosofia que é sua verdadeira pérola e que inspirou tanta gente a criar essas formas de entretenimento jogáveis as quais amamos, que são os Videogames!

Graduado ichidan em Shotokan e 3 Kyu de Kyokushin, pratico Karate há 25 anos e tudo graças a essas influências maravilhosas que são os filmes e os jogos que em muitos momentos tiveram seus caminhos entrelaçados. Hoje sabemos que existem superproduções de jogos que desbancam orçamento de muito filme AAA. Deixo aqui mais um grito de reinvindicação para que jogos eletrônicos sejam reconhecidos como arte, pois se a vida imita a arte e os jogos imitam a vida e são arte!

OSU!

2 thoughts on “Games e Artes Marciais

  1. Meu irmão… O cara que escreveu esse artigo é Jiraya! Sério! Sabe muito de artes marciais e jogos.

    Espada olímpica, golpe frontal!

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